O que vale o "rival" do Magalhães
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Confesso. Estou farto de ouvir falar da greve do Estrela da Amadora. Suspeito mesmo que Joaquim Evangelista pertence a um limbo onde só existem sindicalistas engravatados, que falam advoguês, mas que nunca são capazes de marcar uma manifestação à porta do ministério.
Esta ameaça, que não passa disso mesmo, é um instrumento inócuo. Entendo a frustração de quem sofre, de quem não recebe, mas os jogadores não sentem o mesmo que os mineiros que protestam em Aljustrel ou dos pescadores que não calam a revolta à porta da Docapesca de Matosinhos. Esses trabalhadores também sofrem e quando é para fazer greve, cumprem!
Ora bem, o que se passa na Amadora é uma greve de pantufas. Um toque e foge que termina invariavelmente em derrota (dentro e fora de campo). Energias desnecessárias gastas em reuniões sobre formas de luta. Mas porquê, se a forma de luta é sempre a mesma e nunca é concretizada?
Já pensaram em pedir conselhos ao Mário Nogueira?
É uma verdade que a grave é um direito que assiste a qualquer trabalhador, mas quando lançado como arma de arremesso raramente atinge o alvo. Isto, a propósito da crise que nunca mais passa, dos salários que nunca mais são depositados e das promessas de um presidente que já não tem moral para aparecer em público.
Seria o fim do Estrela da Amadora, como sugeriu Evangelista? Eu diria que, a menos que José Sócrates esteja disposto a injectar mais alguns milhões, é melhor acabar com estes clubes sem viabilidade financeira para cumprir as exigências do principal campeonato nacional.
Mas, como em Portugal não estamos habituados a deixar falir bancos nem clubes, talvez um jornalista se lembre de atirar os sapatos a António Oliveira na próxima conferência de imprensa, como fez o iraquiano a Bush. Um gesto singular que serviria para vincar o ridículo de uma figura que simboliza a covardia e o investimento fictício reinante no nosso futebol.
Bom toque de bola (já jogou com Maradona), pé direito e grande visão de jogo. O bósnio Emir Kusturica, de 53 anos, é o novo número dez do F.C. Porto.
Pelo menos vestiu a camisola com esse número durante o concerto que deu esta sexta-feira à noite em Vila Nova de Gaia, perante cinco mil entusiastas da sua banda.
Foi a primeira vez que a «No Smoking Orchestra» visitou aquela cidade, depois de já ter estado no Coliseu do Porto no início do ano, mas a empatia com o público foi imediata. Os sons ciganos tornaram o Pavilhão Municipal uma verdadeira tenda de festa durante cerca de duas horas.
Muitos dos entusiastas confessaram ter ido ao concerto por conhecerem a obra do realizador Kusturica, mas deixaram-se levar pela música que mistura o punk-rock com os ritmos tradicionais dos Balcãs. Emir mantém-se tranquilo na sua guitarra, primeiro com uma camisa negra e depois com o equipamento oficial do F.C. Porto, que levava vestido por dentro. Nas costas surgiu o nome Kusturica e o número 10. A casa rendia-se e o vocalista Nenad Jankovic (mais conhecido pelo seu nome artístico de Dr. Nelle Karajlic) explodia de energia.
O concerto surge incluído na digressão «Time of the Gipsies», uma espécie de «ópera punk», que passa por vários temas de filmes de Kusturica, como «Gato Preto, Gato Branco». «Pitbull Terrier» levou o público ao delírio e até trouxe espectadores ao palco. No final, mais de 20 pessoas externas à orquestra dançavam (ou pulavam desconcertadamente) ao som frenético da «Orchestra».
De raízes profundamente sérvias, os elementos da banda não se esqueceram dos motivos políticos, começando por criticar a MTV (com um tema denominado «Fuck you MTV) e passando rapidamente aos pedidos de revolução e de reintegração do Kosovo na Sérvia. O concerto terminou com o hino da antiga URSS.